quinta-feira, 24 de julho de 2014

Tô Falando de Amor, Tô falando de "Nós", o Nós coletivo.

Algumas experiências ruins, relacionadas às relações pessoais, sejam elas de amor, ou amizade, podem ser mais do que um motivo pra chorar até os olhos doerem. Questões que geram esse tipo de reação são importantes pra gerar também reflexão, e nos ajudar a entender esses malditos mecanismos que nos afastam, desmobilizam, e destroem o pouco que havíamos construído rumo a alguma transformação.

Ultimamente muitxs tem falado sobre o pessoal, sobre o privado, sobre o público, o político... E dizem, principalmente, das mulheres, que a vida pessoal é a vida privada. Contudo, me recuso a cair nessa falácia. 

Do auge da minha ingenuidade política e da necessidade de estudo sobre o que quero dizer, penso que a transformação da qual falamos, a construção de outra sociedade passa diretamente por vencer alguns mecanismos e formas de relação que mantém essa sociedade como ela é: desigual, opressora, repressora, onde o individualismo e o desrespeito ao outro (que deixa de ser igual), e o que é diferente, ou que tem uma marca qualquer, deve ser desconsiderado enquanto ser inteligente, autônomo, livre (ainda que relativamente). 

Refletindo sobre questões pessoais, mas NÃO privadas, percebi o quanto é difícil falar sobre o amor, sobre a dor, sobre os sofrimentos diversos da nossa razão que se apaixona e permite ao corpo viver sensações incríveis que nos fazem perder o tino inclusive. Decidi escrever, pra dividir os pensamentos, e quem sabe contribuir com alguém ou alguéns que se vejam, em qualquer uma das peças desse jogo de tabuleiro que eu trago aqui (que são as relações amorosas). Essas reflexões caminham pelo pensar sobre o que nós, xs dos movimentos “de esquerda”, temos feito com nossas relações de amor, de amizade, de companheirismo, de camaradagem. 

Somos seres sociais, portanto estamos influenciadxs pelo que vemos, vivemos, pelo que aprendemos pelo que precisamos saber e o que precisamos fazer. E o fato de sabermos disso, e pelo fato de enfrentar também o que isso significa, nos colocamos fora da zona de conforto na hora de recebermos o “se liga” dxs companheirxs e irmxs (será?).    

A incoerência das nossas “pregações”, das nossas falas, se expressa no cotidiano das nossas vidas, e é nas relações mais próximas que elas se explicitam, muitas vezes de forma cruel, porque umx revolucionárix não pode deixar de sentir amor, e um amor ferido pelos “ismos” traz rancor e dúvida sobre a própria revolução quando as incoerências passam da barreira do “inconsciente”. Como confiar nx companheirx de luta na hora do enfrentamento, se no dito amor não houve solidariedade? Fato é que as relações nessa sociedade são moldadas pelas diversas contradições que a mantém e nenhumx de nós em hipótese alguma poderia estar imune a elas.

Nossas ações, nossas falas, nosso comportamento, tudo se mostra e é de fato contraditório. Contudo, eu tenho me perguntado: até que ponto são essas contradições inerentes a essa sociedade? Até que ponto são o desejo conservador de manutenção dos privilégios e das formas de se relacionar? 

Sabemos bem que os mecanismos de controle são muitos em todos os âmbitos da vida, e a racionalidade hegemônica do e no capitalismo destrói amores. “Amores de família” se destroem pelos bens, um inventário causa estrago. “Amores de amigxs” se desfazem, afinal, aquelas bolsas e sapatos causam inveja. “Amores sexuais” são destruídos, o rancor da traição ocupa o lugar. 

Traição aqui é mais que sexo ou paixão ou amor com outrxs pessoas de fora do tabuleiro. Traição aqui é permissividade à falta de cuidado, permissividade à falta de solidariedade, permissividade ao ataque a alguém que se diz amar, permissividade ao desejo de transformar o outro em coisa. Traição aqui, é permitir que xs companheirxs reproduzam os “ismos” mais violentos, os pilares mais resistentes das formas como as relações se dão no capitalismo. 

Ouvi muitas vezes algumxs ditxs companheirxs se perguntando em tom reflexivo sobre a solidão da mulher preta, a impressão que nós temos é que nenhum homem está preparado pra nós. Talvez involuntariamente, inconscientemente, tomado pela mentalidade hegemônica que nos entende e nos quer transformar em “menos gente”, reproduzem os “ismos”, que mantém essa forma social desigual, violenta, agressiva e difícil de destruir. O homem branco, a mulher branca, o homem preto, a mulher preta, na hierarquia social é assim que nos dividem, e nós mulheres pretas faveladas, lá em baixo suportando todo o restante. Está ai mais uma característica dessa sociedade: tudo se hierarquiza pra manutenção do poder e dos privilégios. 

Mas, quais de nós (militantes, lutadorxs, homens e mulheres pretxs), que tem algum tipo de privilégio, seja ele qual for, ainda que dos menores na “escala social” está disposto a abrir mão? Quem de nós está dispostx a enfrentar a construção dessa corrente de privilégios que são reproduzidos, em cada "camada social", e que mantém a maldita pirâmide de pé? Quais dos nossos homens pretos estão dispostos a não reproduzir a opressão que vivem com aquelas que estão mais próximas e “abaixo”? 

O que dizer das mulheres pretas, nós desumanizadas desde que nos trouxeram pra essa terra, violentadas, agredidas, desrespeitadas todos os dias, tocadas sem permissão: pegam nos nossos cabelos, passam a mão nas nossas cinturas de supetão, falam da nossa bunda, da nossa boca, querem nos fazer ouvir coisas sem que queiramos... Enfrentamos e o esforço para o enfrentamento, já diriam na Bahia, é barril dobrado. O que dizer de nós, que como qualquer outro ser nessa sociedade reproduz os conceitos, práticas, moralidades, e que guarda consigo sentimentos e práticas como individualismo, hipocrisia, e a desconsideração por outrxs, muitas vezes, iguais a nós. 

Nós mulheres, pretas ou brancas, somos ensinadas que a beleza física (uma beleza eurocêntrica) deve ser nossa meta, somos ensinadas que nossos cabelos e narizes devem ser transformados para uma beleza que não é a nossa, nem de nossos ancestrais. Vivemos contradições, vivemos dores, conflitos, medos; vivemos amores, felicidades efêmeras, vivemos. Nós mulheres pretas, oprimidas pelo homem branco que nos vê como pedaços suculentos de carne, pela mulher branca que nos vê como o pedaço suculento de carne que sacia seus maridos e que alimenta seus filhos, nós oprimidas pelos homens pretos, que com seus poucos privilégios de machos acreditam que podem colocar sobre nossos ombros as responsabilidades sobre suas dores, seus sofrimentos, seus conflitos, e as violências que sofrem ou sofreram. E nós?

O que dizer de nós, mulheres pretas, que nos relacionamos entre nós como as brancas, que disputam imagem, que disputam outros seres, quase sempre homens. Minha reflexão nesse sentido se dá por experiências vividas por mim em ambos os lados: fui a mulher preta que não mereceu solidariedade, mas também fui a mulher preta que reproduziu seu individualismo, egoísta. Tenho lido coisas de mulheres pretas, somos nós chamando atenção de nós mesmas pras nossas práticas e pros nossos discursos. Somos nós falando entre irmãs, somos nós que nos chamamos assim: irmã pra cá, irmã pra lá. E apartir dessas mesmas experiências tenho pensado sobre o sentido dessa irmandade. Tenho Irma de sangue que não é minha Irma por vários motivos, tenho Irma de vida que o é por vários motivos, e tenho as irmãs de cor, que me chamam de Irmã por eu ser mulher preta. 

E até certo momento, duvidei do sentido dessa irmandade que algumxs bradam pelas reuniões e atos nos quais a gente se encontra, afinal, como dito antes, as contradições estão na cena e os privilégios também, quem quer assumi-los ou perde-los? Para muitxs, irmx, tem sido a pessoa da mesma cor de pele, apenas, reproduzindo um “biologismo” da academia burguesa, a mesma que faz favelado dizer que (re)conhece a fome e não Marx. 

Irmxs são solidárixs, cuidam, alertam, formam, protegem, aprendem e caminham juntxs. As mulheres pretas que tem reconhecido esse sentido de ser irmã, tem colaborado com a eliminação da dúvida sobre o sentido dessa “irmandade”. 

Mas, o que dizer de nós que temos nos permitido ignorar a nossa “irmandade”, que deveria nos fazer apoiar umas às outras, para que todas, sem exceção, participássemos da destruição dessa maldita pirâmide e acabássemos com os privilégios, porque nenhum homem quer perdê-los. Nós, que estivemos a frente de tantas revoltas, nós que todos os dias enfrentamos o racismo nas nossas relações, nós que lutamos pelos nossxs filhxs e irmxs; que temos força e coragem nas favelas pra enfrentar o Estado que quer nos matar. Nós não poderíamos em hipótese alguma nos permitir contribuir com o desrespeito à inteligência e humanidade de uma irmã. Humanidade não no que se refere ao físico apenas, mas à autonomia, ao direito de decidir, à liberdade, ao respeito. 

Os nossos corpos como propriedade, os colonizadores tiveram, e mantiveram durante séculos a fio, e não havemos de permitir que nenhum homem, nenhum! tenha esse tipo de relação conosco ou com uma irmã.


As nossas mentes foram livres, mesmo que de forma limitada, ou não teríamos vencido tantas pequenas batalhas desde que aqui chegamos arrancadas dos nossos tronos, e pensando nisso, minhas dúvidas não cessam, mas fazem querer a sabedoria, e a tranquilidade de entender que o que é pessoal, não pode ser privado quando se trata de algo que pra muitxs de nós é tão caro: o enfrentamento ao machismo, ao racismo, às relações que desumanizam, coisificam e contribuem para a manutenção das opressões, violências, e das relações capitalistas que nos tiram o direito de escolha, nos tiram a possibilidade de viver plenamente, nos transformam em coisa vendável e usurpável 

Eu estive tomada por um sentimento de tristeza, decepção, de dúvidas, por ver xs nossxs reproduzindo entre nós tudo que nos esforçamos pra enfrentar, contudo, como foi dito, o que é pessoal é público, e é político. Enquanto mulher preta e por todo o peso colocado em mim por essa sociedade racista e machista, enquanto mulher que fala de mulheres, que fala de vida, que fala de luta, eu não poderia me furtar de dizer o que penso e sinto. 

O que enfrentamos tem muito peso, os compromissos com a revolução ou transformação ou seja lá como x leitorx prefira, nos faz perder noites de sono, horas de diversão, dias de trabalho. Deixamos de ganhar dinheiro, abrimos mão da individualidade muitas vezes pra construir coletivamente uma outra sociedade pras gerações que virão. E essa construção parte da prática de cada umx de nós, e de todxs nós todos os dias, em todas as nossas relações. Eu seria omissa se não trouxesse essas reflexões a público, porque eu acredito em pessoas, e não vou deixar de acreditar por ter sido alvo da opressão e omissão daquelxs que pensei serem irmxs, daquelxs que entendi serem “dos meus”. 

Enfim, voltando ao inicio, falar de amor, de dor, decepção não é fácil, mas é um exercício necessário quando politicamente essas “pequenas questões” da vida cotidiana são a destruição dos poucos caminhos construídos. Além disso, quando uma mulher fala de decepção, traição, opressão, desrespeito, ela quase sempre está “rancorosa”, “recalcada”, “é louquinha” e outros adjetivos que sabemos bem quais são, contudo, o medo de dizer não pode existir, nossas reflexões sobre as vivencias são o que nos dão possibilidade de “ter” uma práxis transformadora. Já diria Marighella, em outro contexto e por outros motivos, mas disse: é preciso ter coragem de dizer.

Havia um desejo de que as decepções e tristezas, virassem uma reflexão dentro do tabuleiro, mas o tabuleiro se rachou, nem os sentimentos mais tênues de confiança na causa comum foram suficientes pra fazer com que essas ideias fossem divididas com quem de fato deveria ter acesso a elas. As tentativas foram muitas, de que o respeito se sobressaísse no fim das contas, mas o machismo exacerbado, que não é o que culmina na agressão, mas o que culmina na culpabilização, na desumanização, no obrigar a deixar de ser , não permitiu que os ditos pares estivesses de fato ombro a ombro nas trincheiras pelo fim desse mesmo machismo, que desrespeita, desumaniza e agride... o mesmo machismo que mata todos os dias em todos os cantos. 


E como o facebook tem coisas boas, me apresentou Audre Lorde... 

segue um trecho de As cotações do unicórnio Preto 

"E quando falamos temos medo nossas palavras não serão ouvidas nem bem-vindas mas quando estamos em silêncio ainda estamos com medo Por isso, é melhor falar lembrar nós nunca fomos feitos para sobreviver "

2 comentários:

Lana Alves - disse...

Muito bacana esse pensamento...

Neyson Candeias disse...

Você me emociona.